Controle de Escorpiões – Mitos, lendas e ações concretas

William Henrique Stutz - Médico Veterinário Sanitarista
Prefeitura de Uberlândia - Secretaria Municipal de Saúde
Laboratório de Manejo de Animais Peçonhentos e Quirópteros
E-mail whstutz@uberlandia.mg.gov.br
Sítios: http://www.escorpiao.vet.br e http://www.morcegolivre.vet.br


O escorpionismo no Brasil ainda representa grande problema de saúde coletiva, os acidentes com estes aracnídeos tendem a aumentar nas grandes cidades principalmente naquelas onde a oferta de serviços básicos de saneamento, esgoto e coleta de lixo são precários. A dispersão de espécies sinantrópicas vem sendo facilitada pelo aumento da malha viária do país e pela predominância do transporte de cargas das mais variadas feitas por esta via, além do forte fluxo migratório humano de áreas escorpioníferas para outras livres destes animais, esta população por muitas vezes traz em sua bagagem e objetos de mudanças além de esperança, escorpiões exóticos às cidades de destino.

Até o presente momento para nós não foi definida de forma convincente a participação dos produtos químicos no controle escorpiônico principalmente por desconhecimento da biologia, da dinâmica populacional e do comportamento destes aracnídeos por parte das indústrias produtoras, basicamente por falta de pesquisas e ensaios bem conduzidos. Na maioria das vezes o lançamento de novas moléculas no mercado, assim como a propalada eficácia destas objetivando eliminação de escorpiões não vem respaldada por experimentos realizados com animais tropicais ou são lançados com base no controle de outras espécies na maioria insetos ou mais raramente aranhas. Ilustrando o exposto podemos citar a ausência quase que absoluta de registros de rótulo dos produtos no mercado nacional e internacional para tal finalidade. As Prefeituras brasileiras, em particular os órgãos de saúde através de seus Departamentos ou Centros de Controle de Zoonoses, enfrentam graves problemas em oferecer respostas adequadas à população quanto a infestações escorpiônicas, uma vez que uma minoria daquelas possui quadros de servidores suficientes para desenvolver ações no controle e manejo destes animais. ( Esta introdução é um "auto-plágio" , faz parte de um trabalho por nós apresentado no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – Salvador – Bahia ).

Em se chegando ao produto químico ideal, com certeza nenhum profissional excluiria os princípios básicos que regem o controle de animais peçonhentos, quais sejam: mudanças ambientais, educação em saúde, incremento de saneamento básico, captura ativa de animais e medidas anti-escorpiônicas mecânicas.

Metodologia de trabalho em controle de escorpiões em Uberlândia – Minas Gerais.

Atuando no controle de escorpiões desde 1983 a Secretaria Municipal de Saúde através de seu Centro de Controle de Zoonoses - Laboratório de Animais Peçonhentos e Quirópteros, foi com tempo aprimorando um modelo próprio de atuar que segue a seguinte rotina de trabalho.

  • Recebimento da solicitação
  • Deslocamento de equipe para o local
  • Inspeção do imóvel
  • Busca ativa de escorpiões
  • Orientação sobre mudanças ambientais a serem efetuadas ( medidas de vedamento de ralos, caixas gorduras, eliminação de prováveis abrigos de escorpiões, entre outras)
  • Abertura de quarteirão: A partir da solicitação, todos os imóveis daquele quarteirão são vistoriados e seus proprietários orientados, no caso de terrenos baldios, casas fechadas ou demolidas seus proprietários são notificados via Secretaria Municipal de Serviços Urbanos a promoverem limpeza e/ou retirada de potenciais criadouros de escorpiões.

São também desenvolvidos projetos em educação em saúde junta às escolas públicas e particulares durante todo o ano, além da participação do Laboratório de Animais Peçonhentos e Quirópteros em eventos da cidade ( rodeios, exposições agropecuárias, eventos de saúde, além das SIPATS promovidas pelas empresas locais ).

Também desenvolvemos bioensaios controladas de laboratório e campo com produtos químicos na busca de alguma molécula eficaz no controle de escorpiões ( até o presente momento não encontrada, principalmente nas diluições recomendadas pelos seus fabricantes ).

Torna-se importante destacar que nossos bioensaios duram em média 2 anos. Explicamos: os animais utilizados em laboratório são criados e padronizados em nosso biotério desta forma as médias de idade, peso, alimentação são rigorosamente controladas. Estes fatores de certa forma são um grande fator de rejeição por parte dos Laboratórios produtores de moléculas, que de uma forma geral são imediatistas, e lá eles com certa razão uma vez que para as empresas, o lucro, as vendas, estão acima de tudo.

Curiosamente em publicação não tão recente de uma empresa mostrando a fatia que cada "praga" representa para o faturamento das empresas controladoras de pragas, os escorpiões aparecem detentores de irrisórios percentuais, o que nos leva a acreditar que o faturamento com produtos químicos pretensos controladores de escorpiões também não devem ser significativos. Seria este mais um motivo da falta de interesse dos fabricantes em bioensaios mais complexos e demorados?

A dinâmica da população escorpiônica por espécie no município de Uberlândia é bem conhecida, sua distribuição por, sua ocorrência, locais de aparecimento estão registradas em uma série histórica de quase 20 anos,

As autoridades municipais continuam investindo em pesquisa, recursos materiais e principalmente pessoal para o desempenho das atividades de controle de escorpiões, e o mais importante e norteador de nosso trabalho os acidentes com estes animais a nós notificados tem diminuído sensivelmente ano a ano.

Deixo algumas indagações para reflexão : Será que a falsa sensação de segurança que os produtos químicos podem trazer não irá diminuir a preocupação da população com as medidas baratas, seguras e fáceis de executar do manejo integrado?

Será que existe um real compromisso das indústrias e do serviço público com a saúde coletiva? O lucro pode estar acima de qualquer coisa ?

Acreditamos piamente naquilo que falamos?

Com a palavra a consciência dos senhores profissionais.

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